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Um autor por mês
Um autor por mês
Carlos de Oliveira.

 

 

Entramos sempre com maior ou menor

conhecimento do facto numa linhagem que nos

convém e é dentro dela que trabalhamos pelas nossas

pequenas descobertas, mesmo os que se pretendem

duma total originalidade. Não há revoluções literárias

que rompam cerce com o passado. Olhem para elas,

procurem bem, e lá encontrarão as fontes, as

referências, próximas ou distantes. Claro, os

escritores que contam são aqueles que acrescentam ou

opõem alguma coisa ao que já existe, ou o

exprimem de maneira diferente, mas cortes totais,

rupturas, não se dão.

 

Carlos de Oliveira, O Aprendiz de Feiticeiro



 Ciclo de Conferências


Em 2021, comemora-se o centenário do nascimento de Carlos Oliveira. O PNL2027 associa-se a estas comemorações, divulgando a sua obra, estudos e livros sobre o autor, assim como outros eventos.

Acompanhe as comemorações organizadas pela Câmara Municipal de Cantanhede e o Ciclo de Conferências Carlos de Oliveira.

 

Carlos Oliveira

 

Carlos Alberto Serra de Oliveira nasceu em Belém (Pará, Brasil), a 10 de agosto de 1921 e faleceu em Lisboa, a 1 de julho de 1981.

Tendo vindo para Portugal muito jovem, com dois anos apenas, fixou-se com a família no concelho de Cantanhede (Febres), localizado na região geoeconómica da Gândara, a mesma onde se situará a ação de quase todos os seus romances. Estudou Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, numa época (início dos anos 40 do século XX) em que era muito forte a dinâmica de renovação literária subsequente ao modernismo português: viviam-se então os últimos anos da revista Presença, editada em Coimbra desde 1927, em que pontificava a figura de José Régio, e os inícios do movimento neorrealista; as revistas Seara Nova e Vértice acolheram, com várias outras, a produção doutrinária, crítica e literária de Carlos de Oliveira e dos seus companheiros de geração (entre outros, Fernando Namora, Joaquim Namorado, João José Cochofel, Mário Dionísio e Eduardo Lourenço).

(…)

Em 1943 inicia-se a publicação da obra ficcional de Carlos de Oliveira: Casa na Duna (1943), Alcateia (1944), Pequenos burgueses (1948), Uma Abelha na Chuva (1953) e Finisterra: paisagem e povoamento (1978), este último um texto muito denso, em que as categorias convencionais da narrativa e a paisagem gandaresa surgem diluídas numa escrita com forte carga poética, alegórica e simbólica. Também por isso, Finisterra foi visto como definitivo encerramento da ligação já ténue de Carlos de Oliveira ao neorrealismo; esse progressivo afastamento era já visível no adensamento psicológico das versões revistas de Pequenos Burgueses e de Uma Abelha na Chuva (p. ex., nas personagens Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre), bem como na superação de um certo esquematismo social que caracterizava o romance neorrealista ortodoxo.

No plano da criação poética, Carlos de Oliveira é autor de uma das mais significativas produções da história literária portuguesa do século XX. (…)  Desde 2012, o seu espólio literário encontra-se no Museu do Neorrealismo (Vila Franca de Xira)".

                                                                                   in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa 

 

Carlos de Oliveira

 Assista aqui ao vídeo

 

“Estamos numa pequena assoalhada da Casa Carlos de Oliveira. Entre livros e mobiliário que pertenceram a um dos mais notáveis escritores portugueses do século XX.” – Conheça a casa de Carlos Oliveira.

  

 Cinzareia

CINZAREIA
desenhos de Carlos Ferreiro e ensaio de Fernando Cabral Martins
(por ocasião do centenário do nascimento de Carlos de Oliveira)
Barco Bêbado, 2021

 

 

“Os seus livros renovam-se a cada reedição. É como se os livros fossem seres vivos. O mais impressionante é o caso de Turismo (1976), o primeiro, em 1942, que regressa reescrito em Trabalho Poético (1976, reunião da poesia toda) e é um livro diferente, embora não seja um livro diferente, mas apenas o mesmo enxuto até ao osso. Neorrealista na sua primeira publicação, essa marca de época cai, e o que era circunstancial torna-se uma arte da palavra ao mesmo tempo alusiva e figurativa, numa clave minimal que o afasta de Mário Dionísio e Joaquim Namorado e o aproxima de Gastão Cruz e Luiza Neto Jorge, vinte anos mais novos. Porque existe em Carlos de Oliveira (como em Almada ou Cesariny, pouco mais) a capacidade de sentir as mudanças como se houvesse um cordão que o ligasse à ignota lógica do tempo. Não fica preso a opções de escola, a regra do grupo.

 

Ao longo da década de 60, Carlos de Oliveira torna-se um escritor novo. Em 1962, recolhe e reescreve a sua poesia anterior no volume Poesias. Em 1964, 1969 e 1970 publica reedições reescritas de cada um dos seus romances, Casa na Duna, Pequenos Burgueses, Uma Abelha na Chuva.

 

in CINZAREIA (2021). Editora Barco Bêbado

 

Primeiras edições 

Primeiras edições dos livros de Carlos de Oliveira

 

 

Uma Abelha na Chuva

 

Um livro recomendado pelo PNL.

“Uma Abelha na Chuva conta-nos as peripécias de Álvaro Rodrigues Silvestre e sua mulher. A acção decorre na aldeia de Montouro, num Outono chuvoso, e centra-se nas personagens que a habitam e rodeiam este casal, através de quem ficamos a conhecer o Portugal provinciano de meados do século XX.“

                                                                                        in Assírio & Alvim 

 

“Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais;  preocupava-o a terriça, batia os pés com  impaciência no empedrado. Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo.  A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha. Mesmo assim, galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia. Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandareses, por aquele tempo desabrido.

Havia sobre a vila, ao redor de todo o horizonte, um halo de luz branca que parecia o rebordo duma grande concha escurecendo gradualmente para o centro até se condensar num côncavo alto e tempestuoso. Ameaçava chover. O vento ia descoalhando as nuvens e abria caminho à grossa chuvada que a tarde esperava.

O homem cruzou a praça devagar, entrou no Café Atlântico e sacudiu as botas com cuidado no capacho de arame. Sentou-se, pediu um brandy e engoliu-o dum trago. Na sua lentidão natural era a única coisa que fazia com alguma pressa.”

in Uma Abelha na Chuva (2003). Editora Assírio &Alvim

 

Vídeo

 

“Como todos os neorrealistas, Carlos de Oliveira não queria apenas escrever o mundo; queria mudá-lo. A pobreza dos camponeses, a mortalidade infantil e a imigração, "tatuaram" a sua consciência social.  Uma Abelha na Chuva é o retrato de um país oprimido.” – veja o documentário na RTP Ensina.

 

Uma Abelha na Chuva – realizado por Fernando Lopes (1971)

 

Uma Abelha na Chuva foi o filme mais radicalmente moderno do «cinema novo». Adaptação literária integral do romance homónimo de Carlos Oliveira, o filme de Fernando Lopes distinguiu-se por uma das mais sistemáticas desconstruções do cinema português.

As repetições da ação com pontos de vista diferentes e a dissociação entre imagem e som rompem a linearidade narrativa e instalam um distanciamento constante entre o filme e a obra literária. Através destes mecanismos, o filme de Lopes transforma-se numa adaptação «cinematográfica», na verdadeira acepção da palavra, já que prescinde inteiramente do emprego de quaisquer estratégias literárias para filmar o romance.”

in A Invenção do Cinema Português (2008). Editora Tinta da China

 

 

 Casa na Duna

 

Um livro recomendado pelo PNL.

O livro Casa na Duna publicado pela primeira vez em 1943.

 

 "Aqui não sabemos o que mais admirar — da desenvoltura da escrita à densidade do tema, passando pelas principais personagens, jamais reduzidas a caricaturas. Isto num autor que, à época, só tinha 22 anos! Corrocovo, a aldeia da novela, funciona como poderosa metáfora de um país arcaico e claustrofóbico, ainda dominado pela atmosfera rural. Lá, como em Portugal inteiro, ‘há homens a viver como os bichos’. Mas o seu empenhamento social não leva o autor a perder uma atracção quase poética pela natureza. Abundam descrições sugestivas como esta: ‘Hilário gostava do Inverno à solta. Céus a desabar, casebres submersos, pinhais vergados ao peso das bátegas, água e vento contra a janela. Passava as noites acordado enquanto o ar de roldão devastava tudo. Ocorriam-lhe histórias nebulosas da infância. Bruxas, lobisomens, botas de sete léguas’.

O grande fascínio deste livro surge ao nível da técnica estilística: o autor joga com mudanças súbitas de tempo, de forma verbal, de sujeito narrativo. Por influência do cinema, recorre a flashbacks para diversificar a acção. Inspirado em autores como Hemingway, Caldwell e Jorge Amado — que marcaram todo o neo-realismo português —, cultiva o parágrafo curto, seco, incisivo. Nesta prosa não há um adjectivo a mais, nem um vocábulo fora do lugar.”

 

Finisterra 

 

"(…) Além das obras de poesia e de ficção, há que assinalar O Aprendiz de Feiticeiro, um livro que reúne textos de carácter diverso, no qual o escritor se revela, a si e à sua escrita, observando-se e analisando as suas próprias motivações. É neste livro que melhor se percebe, como traço marginal mas dominante em toda a escrita de Carlos de Oliveira, uma consciência da sua própria obra como um todo em (re)construção, tarefa que implica permanentes supressões e reformulações do edifício literário, em nome da coerência interna. Segundo Alexandre Pinheiro Torres, a evolução literária de Oliveira foi ganhando em poder de criação aquilo que perdeu em peso informativo, algo que transparece claramente numa análise da reescrita que as suas publicações foram sofrendo até à data da morte do escritor, em 1981.”

 

                                                                                                         in portal do Museu do Neorrealismo 

 

 

Apresentação da peça de teatro Finisterra, de Carlos de Oliveira, que aconteceu nos dias 28 e 29 de outubro de 2017, no Ateneu Artístico Vilafranquense.


Finisterra

 

 

 

Carlos de Oliveira, apresentado por Jorge Silva Melo

 

 Trabalho Poético

 

Um livro recomendado pelo PNL.

Trabalho Poético reúne toda a poesia do importante poeta (e prosador) Carlos de Oliveira, obra publicada, pela primeira vez, em 2 volumes, na Livraria Sá da Costa Editora. Nesta edição (2003), reproduz-se a 2.ª edição (1982) da Sá da Costa, tendo sido corrigidos alguns lapsos.”

 

“A presente reedição da poesia completa de Carlos Reis, um dos principais nomes da poesia portuguesa atual faz jus à qualidade dos textos do autor: primorosa! A oportunidade de ler, reler, estabelecer relações entre os textos e literalmente viajar, por meio da linguagem, por diferentes tempos da história portuguesa é algo que não tem preço! Aos amantes de poesia, trata-se de um item indispensável à biblioteca particular!”

                                                                                                                                                                                                                              in Assírio & Alvim

 

 

 

Manuel Wiborg lê Carlos de Oliveira

 

“A obra de Carlos de Oliveira coloca de forma essencial a questão da referência, da relação directa com o mundo concreto. nomeadamente, e conforme o vai mostrando em teoria e em acto, enquanto redescrição – ou transformação – do mundo. Mas tudo assenta numa questão de moral: não fugir à luta. A importância desta questão pode talvez ser vista como de circunstância, estando relacionada com um tempo concreto. Mas a poesia, como toda a arte, é uma questão de moral. Saber que os outros existem. Não esquecer que a história existe."

in CINZAREIA (2021). Editora Barco Bêbado

 

 

 

Carta A Ângela | Poema de Carlos De Oliveira com narração de Mundo Dos Poemas

 

Leitura

Quando por fim as árvores
se tornam luminosas; e ardem
por dentro pressentindo;
folha a folha; as chamas
ávidas de frio:
nimbos e cúmulos coroam
a tarde, o horizonte,
com a sua auréola incandescente
de gás sobre os rebanhos.

Assim se movem
as nuvens comovidas
no anoitecer
dos grandes textos clássicos.

Perdem mais densidade;
ascendem na pálida aleluia
de que fulgor ainda?
e são agora
cumes de colinas rarefeitas
policopiando à pressa
a demora das outras
feita de peso e sombra.

Carlos de Oliveira, in Pastoral

 

"«Leitura» é o sétimo poema de uma série de dez, que constitui o último ciclo de poemas de Carlos de Oliveira, Pastoral. (…) o poema faz do seu título uma palavra que pode designar o jogo de linguagem que já começamos a jogar – ler um poema e escrever essa leitura. Desde o início, estamos já de vários modos implicados: leitores, estamos entregues à leitura, e escrevemos. Segundo uma expectativa corrente, o título poderia indicar o tema ou o tópico do poema: a leitura. Mas é justamente essa função temática que a ausência de determinante e o próprio poema menos autorizam enquanto viabilizam uma outra implicação ou consequência: a de que o poema é ele próprio um exercício de leitura.“

Manuel Gusmão, in Século de Ouro – Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX (2002). Edições Cotovia

 

EM VOZ ALTA OS NOSSOS POETAS | Carlos de Oliveira por Luís Lucas

 

 

FÓSSIL

 

A pedra

abriu

no flanco sombrio

o túmulo

e o céu

duma estrela do mar

para poder sonhar

a espuma

o vento

e me lembrar agora

que na pedra mais breve

do poema

a estrela

serei eu.

 

Carlos de Oliveira, in De Cantata.


Carlos de Oliveira por Maria Barroso

clique para ouvir


INSTANTE

 

Esta coluna

de sílabas mais firmes,

esta chama

no vértice das dunas

fulgurando

apenas um momento,

este equilíbrio

tão perto da beleza,

este poema

anterior

ao vento.

 

Carlos de Oliveira, Sobre o Lado Esquerdo


Carlos de Oliveira por Lia Gama e Jorge Silva Melo

 

 

Dia 1 de Julho de 1981 morre Carlos de Oliveira. Mário Dionísio dedica-lhe este poema, aqui dito por Jorge Silva Melo:

 

 

É hoje o primeiro dia

em que há mundo sem ti

Esforço-me por entender o sem sentido disto

Mas não se pensa o que se chora

Espanto-me sim de esta cidade para mim vazia

ser para os outros como sempre a vi

Que pode haver agora?

Que enganosa miragem?

Tu não foste fazer uma viagem

Tua ausência não é um intervalo

Vai-se indo pouco a pouco o porque existo

E nunca mais também sem ti

saberei sequer reinventá-lo

 

Mário Dionísio

 

Prémio Literário Carlos de Oliveira

 

Em homenagem ao escritor, a Câmara Municipal de Cantanhede promove o Prémio Literário Carlos de Oliveira prestando  desta forma  “ um merecido tributo a um dos mais importantes escritores portugueses da última metade do século XX, partindo do reconhecimento de que a sua obra poética e ficcional possui uma dimensão estética e um valor comunicativo que contribui decisivamente para projetar a essência da identidade sociocultural da Região da Gândara, cuja obra literária ajudou a fixar e a divulgar.”

 

Alguns estudos dedicados a Carlos de Oliveira

 

Colóquio Letras

Revista Colóquio Letras nº 195 (2007) que inclui um dossiê temático sobre Carlos de Oliveira, sob a coordenação do Professor Osvaldo Silvestre, o editorial é assinado pelo poeta Nuno Júdice.

 

António Guerreiro - "A textualização do real (a partir de «Finisterra» de Carlos de Oliveira)". In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 104/105, Jul. 1988, p. 79-84. 

 

Eduardo Prado Coelho - “Carlos de Oliveira: paisagem e povoamento". In: Revista Colóquio/Letras. In Memoriam, n.º 62, Jul. 1981, p. 44.

 

Fiama Hasse Pais Brandão - "Nexos sobre a obra de Carlos de Oliveira - II [cont. do artigo do n.º 26, p. 54-66]" / Fiama Hasse Pais Brandão. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 29, Jan. 1976, p. 35-43 

 

Rosa Maria Martelo - "Reescrita e efeito de invariância em «Trabalho Poético» de Carlos de Oliveira" In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 135/136, Jan. 1995, p. 145-155.

 

Rosa Maria Martelo

 

Rosa Maria Martelo tem uma dissertação para doutoramento, publicada em livro intitulado Carlos de Oliveira e a referência em poesia (Campo das Letras, 1998).  A tese poderá ser consultada no Repositório Aberto da Universidade do Porto 

 

Urbano Tavares Rodrigues - "Recensão crítica a 'Finisterra. Paisagem e Povoamento', de Carlos de Oliveira". In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 47, Jan. 1979, p. 89-90. 

 

 

 

Livros do autor

 

 Turismo     Mãe Pobre     Cadernos de Poesia 

 Terra de Harmonia     Sobre o Lado Esquerdo     Micropaisagem 

 Pequenos Burgueses     O Aprendiz de Feiticeiro     Finisterra 

 

Veja também:

"Um Autor por Mês"

"Um Livro por Semana"      

                                    

ENTRELER
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