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Um livro por semana
Um livro por semana
Um livro… sobre a condição humana.
3.julho.2021

 

O estrangeiro

 

 

“Meursault recebe um telegrama: a mãe morreu. De regresso a casa após o funeral, enceta amizade com um vizinho de práticas duvidosas, reencontra uma antiga colega de trabalho com quem se envolve, vai à praia - até que ocorre um homicídio.
Romance estranho, desconcertante sob uma aparente singeleza estilística, em O Estrangeiro joga-se o destino de um homem perante o absurdo e questiona-se o sentido da existência.”

in O Estrangeiro (2015). Livros do Brasil

                                   

  

Albert Camus

 

 

Albert Camus nasceu em Mondovi, na Argélia, a 7 de novembro de 1913. Licenciou-se em Filosofia.
Foi um escritor, filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta franco-argelino. Na política esteve envolvido, de forma ativa, na Resistência Francesa.

 

 

Albert Camus - Prémio Nobel da Literatura

 

 

Distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1957. Conheça o discurso de Albert Camus na entrega do Nobel.

 

 

Centenário de Albert Camus

 

 

Por ocasião do centenário do seu nascimento, em 2013, a Imprensa Nacional dedicou-lhe um livro intitulado Essencial sobre Albert Camus. Na contracapa pode ler-se o seguinte: 

«Para muitos, Albert Camus foi, em meados do século passado, o paladino de uma terceira via entre o fascismo e o comunismo: nas suas obras proclamava a liberdade como valor supremo do homem.
Avesso aos maniqueísmos dominantes, enunciou o princípio fundamental da sua ética, que é a fidelidade a um dever moral: «Acredito na justiça, mas, se fosse preciso, defenderia a minha mãe contra a justiça.»

 

 

 

 

 

“(…) o patrão mandou-me chamar e fiquei aborrecido, porque pensei que me ia dizer para telefonar menos e trabalhar mais. Não era nada disso. Declarou-me que me ia falar num projeto ainda muito vago. Queria apenas saber a minha opinião sobre o assunto. Tencionava instalar um escritório em Paris, para tratar  directamente com as grandes companhias, e perguntou-me se eu estava disposto a ir para lá. Poderia assim viver em Paris e viajar durante o ano. «Você ainda é novo e creio que essa vida lhe agradaria.» Disse que sim, mas que, no fundo, me era indiferente. Perguntou-me depois se eu não gostava de uma mudança de vida. Respondi  que nunca se muda de vida, que em todos os casos todas as vidas se quivaliam e que a minha, aqui, não me desagradava. Mostrou um ar descontente, disse que eu respondia sempre à margem das questões e que não tinha ambição, o que, para os negócios, era desastroso. Voltei para o meu trabalho. Teria preferido não o descontentar, mas não via razão alguma para modificar a minha vida. Pensando bem, não era infeliz. Quando era estudante, alimentara ambições desse género. Mas, quando abandonei os estudos, compreendi muito depressa que essas coisas não tinham verdadeira importância.” 


Cartaz do filme The Stranger


Em 1967, Luchino Visconti adapta ao cinema o livro O Estrangeiro, de Albert Camus.

 

 

 


Camus foi, provavelmente, um dos nomes mais incompreendidos da história da literatura e da filosofia. As suas obras literárias foram consideradas existencialistas, procurando um sentido para a vida e denunciando o absurdo do mundo.
O Estrangeiro é um dos romances mais conhecidos do escritor Albert Camus, o qual integra a trilogia do absurdo, assim como O Mito de Sísifo, um ensaio, e a peça de teatro - Calígula.

 

A obra literária de Albert Camus foi traduzida em mais de sessenta e oito línguas.

 

 Breve documentário - Albert Camus, Un Combat Contre L'Absurde (legendado)

 

 

“Sentou-se [o advogado] na cama e explicou-me que tinha andado a investigar a minha vida privada. Tinham descoberto que a minha mãe morrera recentemente no asilo. Procedera-se então a um inquérito em Marengo. Os investigadores tinham sabido que eu «dera provas de insensibilidade» no dia do enterro. « veja se compreende», disse o advogado, « custa-me um bocado a perguntar-lhe isto. Mas é muito importante. E será um grande argumento para a acusação, se eu não conseguir dar resposta.» Queria que eu o ajudasse. Perguntou-me  se eu, nesse dia, tinha tido pena  da minha mãe. Esta pergunta muito me espantou e parecia-me  que não era capaz de a fazer a ninguém. Não obstante, respondi que perdera um pouco o hábito de me interrogar a mim mesmo e que era difícil  dar-lhe uma resposta. É claro que gostava da minha mãe, mas isso nada queria dizer. Todos os seres saudáveis tinham, em certas ocasiões, desejado, mais ou menos, a morte das pessoas que amavam. Aqui, o advogado cortou-me a palavra e mostrou-se muito agitado. Obrigou-me a prometer que não  diria isto na audiência, nem ao juiz de instrução. Expliquei-lhe, no entanto, que a minha natureza era feita de tal modo que as minhas necessidades físicas  perturbavam frequentemente os meus sentimentos.  No dia do enterro, estava muito cansado e com muito sono, de forma que não dei lá muito bem pelo que se passou. O que podia afirmar, com toda a certeza, era que preferia que a mãe não tivesse morrido. Mas o advogado não ficou contente. Disse: « Isso não chega.»
Pôs-se a pensar. Perguntou-me  se se poderia dizer que, nesse dia, eu  reprimira os meus sentimentos naturais. respondi: «Não, porque não é verdade.» Olhou-me de um modo estranho, como se eu lhe inspirasse uma certa repulsa. Disse-me, quase maldosamente, que, de qualquer  forma, o diretor e o pessoal do asilo seriam ouvidos como testemunhas, o que « seria, sem dúvida, muito mau para mim». Fiz-lhe notar que essa história não tinha nenhuma relação com o meu caso, mas ele respondeu-me que se via bem que eu não conhecia a justiça de perto.” 

 

 

Outros livros de Albert Camus:

O homem revoltado A peste A morte feliz A queda

O exílio e o reino O mito de Sísifo O primeiro homem O avesso e o direito

  

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