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Um livro por semana
Um livro por semana
Um livro imperdível
21.novembro.2020

 

Ficção curta completa

 

“Sou um homem bastante idoso. A natureza das minhas ocupações nos últimos 30 anos  proporcionou-me um contacto mais do que banal  com o que pareceria ser um conjunto de homens interessantes  e algo singulares, de quem, até à data, nada foi, que eu saiba, alguma vez escrito – refiro-me  aos amanuenses ou escrivães. Conheci muitos deles, profissionalmente e em âmbito privado e, se quisesse, poderia relatar diversas histórias com as quais os cavaleiros de boa índole poderão sorrir  e as almas sentimentais  poderão  chorar. Mas  renuncio às biografias de todos os outros escrivães por alguns  excertos  da vida  de Bartleby, que era  o escrivão mais estranho que alguma vez vi ou do  qual já  ouvi falar. Embora eu pudesse escrever a vida completa, nada do género se pode fazer quanto a Bartleby.  Creio que não exista  material suficiente para uma biografia integral e satisfatória deste homem. Isso é uma perda irreparável para a literatura. (…)
É, obviamente, uma parte indispensável dos afazeres de um escrivão verificar a precisão da sua cópia, palavra por palavra. Quando estão dois ou mais escrivães num escritório, eles ajudam-se mutuamente neste exame, lendo um deles  a cópia, com o outro na posse do  original. É uma coisa muito aborrecida, cansativa e letárgica. Eu consigo facilmente imaginar que , para alguns temperamentos  sanguíneos, isto seria completamente intolerável. Por exemplo, não consigo acreditar que Byron, o fogoso poeta, se teria sentado alegremente com Bartleby para examinar  um documento legal de, digamos, 500 páginas, escritas num cursivo miudinho“

Bartleby, o Escrivão – Uma História de Wall Street - in Ficção Curta Completa, Herman Melville (2019). Lisboa: E-Primatur

  

 

 Bartleby The Scrivener (Movie), Herman Melville 1853 

 

Ficção Curta Completa, de Herman Melville, (E-Primatur, 2019) é um livro que aborda problemas universais “os seus temas, os seus personagens e a sua inspiração são transversais às mais diferentes culturas e fazem dele um dos mais marcantes escritores de língua inglesa.”

Esta edição portuguesa recolhe 21 textos, dos quais mais de metade são, pela primeira vez, publicados em língua portuguesa, dá-nos a conhecer um dos grandes da literatura americana e universal, dando oportunidade ao leitor de ler ou reler contos incríveis, como por exemplo Billy Budd, Marinheiro e Bartleby, o Escrivão, e descobrir o talentoso autor do romance Moby Dick, a sua obra-prima.

 

 

Moby Dick (1956): Gregory Peck's best scene

 

Moby Dick, título que imortalizou Herman Melville, narra a história do capitão Ahab que impõe à sua tripulação a concretização do seu maior desejo – destruir a grande baleia branca, uma história de obsessão e desejo de vingança.

 

Herman Melville

 

“Herman Melville (1819-1891) foi um dos mais importantes romancistas da literatura norte-americana; foi também contista, ensaísta e poeta, com mais de 30 obras publicadas. Melville, cujo nome qualquer leitor reconhece de «Moby Dick», a história da perseguição à grande baleia branca, nasceu no seio de uma família de grande prestígio, mas com grandes dificuldades económicas, que os pais esconderam a Herman e aos seus sete irmãos. (…) Herman e os irmãos acompanharam os pais para várias cidades americanas sempre que estes tentavam refazer a sua vida, e a sua educação foi feita em diversas escolas. Teve vários trabalhos em escritórios e lojas, e de 1839 a 1844 foi marinheiro embarcado em diversos navios. Nos cinco anos que se seguiram publicou grande parte dos seus livros, inspirados na sua experiência marítima, e viu a crítica e sobretudo o público reconhecer-lhe os méritos. Inicia uma correspondência e amizade profícuas com o escritor Nathaniel Hawthorne e publica a sua obra-prima «Moby Dick»  em 1851 (primeiro em Inglaterra e só depois nos Estados Unidos). A partir desses anos, Melville, que casara e planeara viver da escrita, cai no esquecimento do público e até ao fim da vida tem de aceitar diversos trabalhos para sobreviver. Só após a sua morte, e aquando do centenário do seu nascimento, é que a crítica redescobre o autor e o seu génio e Melville passa a integrar o panteão dos grandes nomes das letras universais” in Wook.

 

 

The Life of Herman Melville

 

“Nos tempos anteriores aos navios  a vapor, ou então mais frequentemente  do que agora, um transeunte que passeasse ao longo das docas de qualquer  porto de mar digno de consideração teria a sua atenção ocasionalmete  cativada por um grupo de marujos bronzeados, homens de navios de guerra ou marinheiros da marinha mercante em traje de folga, em terra durante uma licença. Em determinadas alturas, estes flanqueriam, ou, à semelhança de uma guarda de corpo, cercariam deveras  uma qualquer figura  superior à sua própria classe, deslocando-se juntamente  a estas  como Aldebarã entre as luzes menores da sua contelação. Esse objecto notável era o “ Belo Marinheiro”  do tempo  menos prosaico  das marinhas  militares e, igualmente, das mercantes. Sem vestígio perceptível de vanglória nele, antes com a impassibilidade improvisada de uma realeza congénita, ele parecia aceitar a espontânea homenagem dos camaradas de bordo.“

Bill Budd, Marinheiro - in Ficção Curta Completa, Herman Melville (2019). Lisboa: E-Primatur

 


The Guardian dedica artigo sobre ficção de Herman Melville.

  

 

“Não há uma linha dos seus textos que soe a verdade e, no entanto, tudo na sua obra é verdade.”

Joseph Conrad

 

“Nenhum autor alguma vez conseguiu apresentar ao leitor a realidade como o faz Melville mesmo quando os seus livros são fantasiosos. (…) Melville merece a imortalidade bem mais do que muitos de nós.”

Nathaniel Hawthorne

 

Livros do autor 

Moby Dick    Bartleby    Benito Cereno Billy Budd Bartleby


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