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Um livro por semana
Um livro por semana
Um livro de poesia
20.março.2021

 

Obra poética

 

No silêncio das tapeçarias
há a memória
das terríveis batalhas
do imaginário.
Mas são ternas
as cartas que trocam entre si
os seus heróis.
É certo que as árvores cantam por toda a parte
a sua música
e que há enfim leões e elefantes
no centro de Londres
de Paris ou de New York.
Agora a tua face está cravejada de ponteiros
e a manhã que acaba de nascer
regressa ao ventre materno.
Lisboa cobre-se de gaivotas.
Um gravíssimo excesso de grandeza
anuncia o Nada.

                                        Áfricas 69

 

 Artur Cruzeiro Seixas

 

 

"Quando faço poesia pinto, e ao pintar faço poesia”. Artur Cruzeiro Seixas



“Decano da arte portuguesa e um dos grandes nomes do Surrealismo português e europeu, Artur do Cruzeiro Seixas nasceu em 1920, na Amadora. No seu longo percurso artístico, conta com uma fase expressionista, outra neo-realista e outra, com início no final dos anos 40, mais prolongada, em que integra o movimento Surrealista Português, ao lado de Mário Cesariny, Carlos Calvet, António Maria Lisboa, Pedro Oom ou Mário Henrique Leiria. Foi um dos seus precursores e atualmente é considerado um dos seus máximos expoentes, considerando-se que o surrealismo fantástico visível na sua obra tenha tido como principal inspiração o trabalho do artista De Chirico.
É autor de um vasto trabalho no campo do desenho e pintura, mas também na poesia, escultura e objetos/escultura. No ano de 1952, foi viver para Angola, onde realizou várias exposições individuais e projetos na área da museologia.
Em 1964, fugindo da guerra colonial que se vivia, decidiu empreender uma viagem pela Europa. No seu percurso conta inúmeras exposições individuais e coletivas em importantes museus e galerias, em Portugal e no estrangeiro, e com diversos prémios e distinções.
Em outubro de 2012, a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe a Medalha de Honra em forma de reconhecimento pela sua longa e sólida carreira artística, como pintor e poeta.
Em outubro de 2020 foi agraciado pela Ministra da Cultura, com a Medalha de Mérito Cultural, "reconhecimento institucional, mas é também um reconhecimento pessoal de alguém que se junta aos muitos que o admiram e que em si reconhecem um olhar que sempre viu mais longe e mais profundo". Morreu a 8 de novembro de 2020, em Lisboa, prestes a completar 100 anos.

In Wook

 

   

Cruzeiro Seixas: O Vício da Liberdade

 

 

Cada poema
cada desenho
são os marinheiros que navegaram na minha cama
são uma revolução não só gritada na rua
são uma flor nascendo nos campos
e é o luar e a sua magia
e é a morte que não me quer
e é UMA MULHER
surpreendente como marinheiro
luminosa como a palavra REVOLUÇÃO
tão natural como o malmequer
tão metafísica como o luar
tão desejada como a morte hoje
A MINHA MÃE
Infinita e profunda
Como o mar.

                                        Áfricas

 

 

  

ERA UM PÁSSARO ALTO

Era um pássaro alto como um mapa
e que devorava o azul
como nós devoramos o nosso amor.
Era a sombra de uma mão sozinha
num espaço impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão.
Era a chegada de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal
dentro de um pequeno diamante.
Era um arranha-céus
regressado do fundo do mar.
Era um mar em forma de serpente
dentro da sombra de um lírio.
Era a areia e o vento
como escravos
atados por dentro ao azul do luar.

                                        Artur do Cruzeiro Seixas

 

  

Quando eu Morrer, de Cruzeiro Seixas

 


Meninos rodam relógios estrepitosamente na calçada
sem se aperceberem de que as pombas se transformaram.
Os sinos
(como se fossem ainda meninos)
são pontes ciumentas torres em forma de raiz
e nevoeiros
extensos como países.
Cada gato passeia um sonho pela trela
supondo-se translúcido
e há aviões gelados
suspensos no espaço.
Uns e outros se transformam naturalmente em ossos
de que depois
é feito o futuro.

                                        Áfricas 52

 

 

O Meu Amor És Tu, Cruzeiro Seixas

 

Hei-de lembrar eternamente a hora exacta
em que morrerei
entre venenosas flores.
Correrei sustido junto ao mar
que dizes
é o meu reflexo.
E os teus olhos são jardins abertos
que rego amorosamente
e abandono aos cavalos cornudos
do dia-a-dia.
Sinto o naufrágio de todos os leitos
e beijo os manequins dados à costa.
Beijarei ainda o alto espaldar da cadeira
e no prato de prata essa estrela aberta ao meio
cirurgicamente como um fruto
na última sala
do meu ex-coração.
Tudo o que faço inscreve-se
na curva perfeitíssima da memória;
que importa a sede das pedras
no espaço forrado a veludo?
Cresce a vaga curva-se o país de labaredas
e uma estátua de água assobia
enterrando uma palavra encontrada sem fôlego
junto ao sol.
Agora está grávido o Vento
e na sua fuga
arrasta as cidades.

                                        Áfricas 59

 

 

Cruzeiro Seixas | Homenagem

 

 

 

 

 

A Fundação Cupertino de Miranda, que alberga o Centro Português do Surrealismo, e todo o acervo de Cruzeiro Seixas, lamenta que o artista tenha morrido sem “poder ver em vida” aquela que era a “exposição que representava a concretização de um sonho”, uma mostra individual com 80 obras, documentos e tapeçaria.  O Jornal Público faz a reportagem.

 

O artista plástico Artur do Cruzeiro Seixas morreu em Lisboa, aos 99 anos, no dia 9 de novembro de 2020.

 

 

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